quinta-feira, 18 de abril de 2019
A NECESSÁRIA DESAPRENDIZAGEM
Admmauro Gommes
O exercício da desaprendizagem implica em apagar velhas imagens e colocar em seu lugar outras figuras. Isto pode ser contundente, representando violento choque diante de tudo que se aprendeu. Importa agora o que de novo se absorve, não mais as lições antigas, sem práticas serventias. Quem assim se exercita, tem uma sensação de tempo perdido, diante do monte de coisas que guardou e que, de repente, não tem mais valor. Lanço mão da conhecida ilustração de que para colocar um líquido em um copo cheio, é preciso esvaziá-lo.
E esvaziar-se não é tarefa de pouca monta. Nos últimos anos, aprendi que o ódio e a pequenez que alguém sente (mesmo que seja por mim), pertencem unicamente a ele. Prejudicam unicamente a ele. E a mágoa que alimento por outrem, somente a mim causa destruição. Precisei apagar muitas páginas de vida para aprender isto. Foi Neruda quem disse: “Se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo, e esperaria que nascesse o sol.” Grande lição nos passa o poeta. Mas ter um coração não significa possuir a capacidade de perdoar, ou esquecer de onde partem os espinhos que nos ferem e nem todos podem escrever sua cólera sobre o gelo. Muitos preferem gravar em aço, mesmo que isso seja levado às placas tumulares.
Recentemente, aprendi que não podemos perder nada que nos pertence; aquilo que achamos que perdemos, na verdade, nunca nos pertenceu. Assim, carregamos por muitos anos a ilusão de propriedade e domínio sobre pessoas e objetos. No final, percebemos, desencantados, que tudo não passou de um ponto de vista distorcido, porque aquilo que possuímos está em nós mesmos. E isso não se perde porque se confunde com a essência do que somos. O que está fora de nós é alheio a nossa propriedade e apenas carregamos falsa concepção de posse. Mas chega um dia em que, como águas que escapam por entre os dedos, vamos nos desprendendo de tudo que conquistamos, e das peças onde colocamos a marca de donos.
Relutei em compreender coisas terríveis, também: só tem o poder da palavra quem tem o poder. E o poder não se reparte. Mesmo nas formas democráticas, sua partilha o torna fragmentado e se estabelecem relações de igualdade entre forças, coloca-se em risco um poder central. Sei que é um perigo defender ideias como estas, nos dias atuais, pois se compartilham todas as situações, quer virtuais ou reais. O poder representado por micropoderes, ou facções de um poder maior, fica vulnerável a um colapso. Principalmente, quando há concorrência envolvendo suas pequenas representações. Deste modo, o todo é comprometido. Se todos mandam, há forte probabilidade de ninguém obedecer, pois as leis de mando também são ocasionais e faccionais e, se repartidas, assumem estranhas proporções, se são marcadas por interesses individuais.
Entendi, portanto, que nada de novo se aprende sem que alguém se desnude das máscaras envelhecidas e envilecidas, estragadas pelo tempo. E há uma luta enorme dentro de cada um. Ao desejar percorrer nova vereda, o corpo, de tão acostumado ao torto caminho, se nega a qualquer comando. Assim, desaprender representa um esforço descomunal, mas necessário, quando a mudança de hábito, rotação e frequência se aproxima de uma nova aprendizagem, mas que ainda não se identifica com o senso comum.
A TÃO SONHADA VELHICE
Outro dia, um amigo que havia saído de uma situação de risco, comentou que a morte era ingrata e covarde porque ameaça e rejeita. Discordo porque até mesmo os frutos das árvores são ameaçados pelas tempestades e não caem, porque não chegou a sua hora.
O livro de Eclesiastes diz que há tempo para nascer e para morrer. Analisando à luz do que posso ver e entender, é que se a tal lhe rejeitou, é porque não estava no tempo. Já que ela é imparcial, não escolhe por raça, intelectualidade, poder aquisitivo, religião e outros. A doença sim, esta é covarde, nos visita sem ser convidada, maltrata e dá uma certa proteção a uns, oferecendo bons médicos, hospitais e proteção total.
Aproveito para juntar a estas duas personagens, outra que todos falam, esperam, mas quando ela chega, às vezes, começam a sofrer e refletir, tendo até crise existencial. Refiro-me à tão sonhada velhice. O que ela nos traz de bom? Há um grande paradoxo, pois traz dores, enfados, lembranças de amores vividos, e de outros que pensamos ter vivido, mas que já morreram. No entanto, nos honra com a experiência, os amigos que conquistamos e sempre uma boa história para contar.
De um lado, a certeza que as rugas e os cabelos brancos são troféus conquistados e que muitos continuam concorrendo para chegar ao pódio, que esta nos colocou com vigor e esperança. De outro, a incerteza se a conquistará e celebrará ao passar pelas curvas desta estrada tão bela, a vida.
FERNANDO PESSOA E O MAR
Maria José de Oliveira Costa
Maria José de Oliveira Costa
Infelizmente não tenho capacidade de fazer uma apreciação mais profunda deste livro, pelo fato de não conhecer a poesia de Fernando Pessoa, sendo desta forma impossível para mim identificar a interligação dos poemas deste com os daquele.
Mas, os poemas do professor Admmauro Gommes fazem valer a pena a leitura e releitura como uma forma de mergulhar no mundo de um poeta. Há tanto tempo que conheço (?) meu amigo, o autor, e realmente descubro que só o conhece um pouco, aquele que lê seus poemas. Como ele se empolga em seu: VOU-ME EMBORA PRA PEROBA.
Quase que o ouço relatando suas motivações de ir morar em Peroba. E são muitos os poemas onde quase o vejo passear ao entardecer na orla daquela praia. É fascinante a maneira como ele pensa que se esconde por trás de tantas metáforas, realmente como ele diz: o poeta é INOCENTE. Para confundir mais o leitor ele dispara:
"O que me desassossega a alma
é que dos muitos que sou
nenhum se parece comigo.." (DESASSOSSEGO, pág. 54)
Mas algumas vezes me identifiquei, e penso até que ele tem minha idade ao ler 'NÃO FOI O TREM QUE PASSOU.' Lendo: BOLERO DE RAVEL, bateu-me uma saudade não sei de que, a música pareceu retinir no meu ouvido.
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