Admmauro Gommes
O exercício da desaprendizagem implica em apagar velhas imagens e colocar em seu lugar outras figuras. Isto pode ser contundente, representando violento choque diante de tudo que se aprendeu. Importa agora o que de novo se absorve, não mais as lições antigas, sem práticas serventias. Quem assim se exercita, tem uma sensação de tempo perdido, diante do monte de coisas que guardou e que, de repente, não tem mais valor. Lanço mão da conhecida ilustração de que para colocar um líquido em um copo cheio, é preciso esvaziá-lo.
E esvaziar-se não é tarefa de pouca monta. Nos últimos anos, aprendi que o ódio e a pequenez que alguém sente (mesmo que seja por mim), pertencem unicamente a ele. Prejudicam unicamente a ele. E a mágoa que alimento por outrem, somente a mim causa destruição. Precisei apagar muitas páginas de vida para aprender isto. Foi Neruda quem disse: “Se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo, e esperaria que nascesse o sol.” Grande lição nos passa o poeta. Mas ter um coração não significa possuir a capacidade de perdoar, ou esquecer de onde partem os espinhos que nos ferem e nem todos podem escrever sua cólera sobre o gelo. Muitos preferem gravar em aço, mesmo que isso seja levado às placas tumulares.
Recentemente, aprendi que não podemos perder nada que nos pertence; aquilo que achamos que perdemos, na verdade, nunca nos pertenceu. Assim, carregamos por muitos anos a ilusão de propriedade e domínio sobre pessoas e objetos. No final, percebemos, desencantados, que tudo não passou de um ponto de vista distorcido, porque aquilo que possuímos está em nós mesmos. E isso não se perde porque se confunde com a essência do que somos. O que está fora de nós é alheio a nossa propriedade e apenas carregamos falsa concepção de posse. Mas chega um dia em que, como águas que escapam por entre os dedos, vamos nos desprendendo de tudo que conquistamos, e das peças onde colocamos a marca de donos.
Relutei em compreender coisas terríveis, também: só tem o poder da palavra quem tem o poder. E o poder não se reparte. Mesmo nas formas democráticas, sua partilha o torna fragmentado e se estabelecem relações de igualdade entre forças, coloca-se em risco um poder central. Sei que é um perigo defender ideias como estas, nos dias atuais, pois se compartilham todas as situações, quer virtuais ou reais. O poder representado por micropoderes, ou facções de um poder maior, fica vulnerável a um colapso. Principalmente, quando há concorrência envolvendo suas pequenas representações. Deste modo, o todo é comprometido. Se todos mandam, há forte probabilidade de ninguém obedecer, pois as leis de mando também são ocasionais e faccionais e, se repartidas, assumem estranhas proporções, se são marcadas por interesses individuais.
Entendi, portanto, que nada de novo se aprende sem que alguém se desnude das máscaras envelhecidas e envilecidas, estragadas pelo tempo. E há uma luta enorme dentro de cada um. Ao desejar percorrer nova vereda, o corpo, de tão acostumado ao torto caminho, se nega a qualquer comando. Assim, desaprender representa um esforço descomunal, mas necessário, quando a mudança de hábito, rotação e frequência se aproxima de uma nova aprendizagem, mas que ainda não se identifica com o senso comum.

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